Novos Voos - Take Two

Segunda-feira, Abril 27, 2009
Prioridades

Desde já uma declaração de interesses: sou um solitário inveterado e tão aficionado ao transporte em viatura própria como se pode ser, pelo que o que a seguir escrevo terá que ser lido com alguma dose de ceticismo (cá está um dos benefícios do acordo ortográfico: poupamos uma caratér ao mesmo tempo que gastamos 155 a explicar que se trata da aplicação do acordo e não de um erro ortográfico).
A minha maior irritação com os automóveis é a tendência que têm para avariarem inusitadamente, e exactamente pouco tempo após a vinda de uma revisão completa. E irrita-me mais porque sou daqueles que até respeitam os prazos de revisão, de mudança de óleo e tudo o mais, e acima de tudo, nunca deixo que envelheçam nas minhas mãos, tentando evitar ter que tratar os “alzheimeres” e “parkinsons” que os acometem quando começam a envelhecer. Pior ainda é que geralmente, estes percalços acontecem em sítios movimentados, deixando-nos na embaraçosa situação de ter que vestir aqueles ridículos coletes a que nos obriga o Código de Estrada, e que nos faz parecer cantoneiros atarantados.
Foi isso que recentemente me aconteceu: em pleno centro de Lisboa, a viatura decidiu deixar o seu pedal de mudanças inerte e a mim incapaz de o fazer mover-se por muito que tentasse.
Portanto, e após deixar o caprichoso veículo na oficina e reclamar da revisão, que remédio senão recorrer aos transportes públicos. E se a primeira viagem até foi agradável - fiz uma volta quase completa a Lisboa no eléctrico 28, que é um perfeito circuito turístico - já o mesmo não se pode dizer da segundo. Meti-me no Metro no Saldanha tendo em vista deslocar-me ao Colombo, o que me obrigava a mudar de linha no Marquês de Pombal. Nada de assinalável na 1ª parte do percurso, até porque a carruagem ia quase vazia. Mudança de linha efectuada, e para grande satisfação, novamente a carruagem com muitos lugares vagos, o que, pensei, me proporcionaria um resto de viagem tranquilo o suficiente para poder usufruir de uns momentos de agradável leitura, pelo que me sentei junto à coxia sem ninguém por perto e abri o meu livro.
A tranquilidade foi de pouca dura: na paragem seguinte entraram uns poucos adolescentes - eles e elas - que além da algazarra, mudavam de lugares a cada 5 segundos. Nada de muito incomodativo, mas o suficiente para me desconcentrar da leitura. Estava a tentar adivinhar em que estação sairiam, quando ouço um tilintar de chaves. À altura dos meus olhos surge então um molho das ditas - tão grande como o de um guarda-nocturno dos antigos - pendurado numas calças de ganga pertencentes a um tipo que pretendia sentar-se a meu lado, no lugar da janela. Desviei-me um pouco para lhe dar passagem e, logo que se acomodou, começou a manipular furiosamente um pequeno Rádio com mp3, que assim à vista desarmada, me pareceu de gama média/baixa, coisa para custar entre 20/30 €. Só que, o que me fez olhar para o homem - baixo, de meia-idade, com um aspecto absolutamente vulgar - não foram as chaves nem a sua obstinação com o pequeno aparelho. Foi o cheiro que o envolvia e que o precedia a vários metros. Era um odor de suor de vários dias, entranhado, e absolutamente intolerável.
Lembro-me que quando andava no Liceu foi-nos marcada uma visita de estudo ao Jardim Zoológico - o que muito nos satisfez - e a acompanhante idónea foi a nossa simpática professora de Geografia. A coisa correu bem até chegarmos às jaulas dos saguins. Um deles estava num visível estado de excitação sexual, pelo que o gozo da malta foi, naturalmente, imediato. E é evidente que as provocações ao excitado animal começaram, no que se evidenciou um colega meu que, por mera coincidência tinha a alcunha de “Macaco”. O saguim aparentava uma irritação crescente e começou a guinchar e aos pulos, e a agarrar desesperadamente nas barras da jaula, na tentativa (vã) de as arrancar de modo a poder punir o provocador. Impotente, agarrou numa mão cheia de palha, restos de comida e dejectos e arremessou aquela papa em direcção ao meu colega. Só que este tinha reflexos rápidos e desviou-se a tempo. Lamentavelmente, a minha professora de Geografia não tinha os reflexos tão afinados, pelo que foi a feliz contemplada com um belo banho de trampa e mijo de macaco misturados com cascas de amendoins e de bananas.
Imaginem o cheiro com que a senhora saiu do Zoo, mesmo depois de zelosamente limpa por um tratador que assistiu ao desenlace. Acreditem: aquele cheiro ainda até há pouco tempo e passados umas décadas, me vinha de vez em quando ao nariz.
Mas agora receio que o cheiro do meu companheiro de viagem actualize a minha memória olfativa, tomando o lugar daquele que já fazia parte da minha história de vida e pelo qual, de certa forma, já nutria algum afeto.
Pensei mudar de lugar, mas entretanto o Metro tinha lotado, pelo que, num acesso de masoquismo, permaneci no lugar, apesar das minhas narinas se queixarem dolorosamente.
Que diabo, aquele tipo, com o que tinha gasto no MP3 do qual - ao que me pareceu - não tirava partido, uma vez que estava constantemente a mudar de emissora, bem podia comprar uns frascos de gel de banho, ou, sendo mais conservador, uns sabonetes da Saboaria Confiança. Pelas minhas contas, o dinheiro gasto no aparelho dar-lhe-ia para comprar pelo menos uns 7 ou 8 sabonetes, quantidade que, durante uns meses largos, pouparia aos seus companheiros de viagem, a tortura de inspirarem aquele pouco estimável e muito personalizado perfume.
Quando por fim cheguei ao destino, pensei para comigo que:
1 - as prioridades dos portugueses - pelo menos de alguns - deixa muito a desejar.
2 -os transportes públicos deviam ter à entrada, algo assim como aqueles duches por onde tem que se passar antes de entrar nas piscinas, mas a seco. (outra hipótese, seria haver em cada paragem um polícia com um daqueles cães farejadores que dissuadisse os clientes com falta de hábitos higiénicos a entrarem no transporte)
E voltei a pé para casa, que o meu médico de família anda-me sempre a recomendar exercício físico, donde telefonei para a oficina para insistir que precisava do carro com muita urgência.
Terça-feira, Outubro 14, 2008
Do Moleskine (1) - Qué Pasa?
Nada pior que não entendermos para onde caminhamos, ou, pior ainda, verificarmos que transitamos precisamente no sentido oposto ao que desejaríamos. Vem isto a propósito do modo como hoje se vive, em certa medida, a cidade de Lisboa.
Há não muito tempo, para mim, o Porto era robustez, Lisboa leveza. O Porto era rigor, Lisboa a despreocupação. Sei que, nessa altura, tais asserções significavam que o Porto era trabalho, e Lisboa a preguiça. E eu, como lisboeta, não me preocupava nada com o que de depreciativo tal conclusão encerrava. Importante era a claridade transbordante da cidade, o esparramar do sol pelas cadeiras da esplanadas, o cheiro do Tejo que chegava aos Restauradores, o calcorrear desprendido pelas vielas, com paradas numa ou outra tasca para aquecer com uma ginjinha ou um eduardino.
Mas hoje tudo mudou. A cidade parece ter-se fechado sobre si própria, ficou cinzenta. Esventraram o Terreiro do Paço, e da baixa, vão longe os tempos áureos. Mas o mais preocupante, é que parece que o que tornou a cidade mais sombria, foi o próprio povo, que se move acabrunhado como se carregasse aos ombros todo o peso do mundo, rarefazendo o ar da cidade, tornando-a pesada.
Sempre houve, entre os estilos de vida espanhol e português, uma diferença assinalável. Mas hoje parece que se acentuou. Basta-nos atravessar a fronteira e andarmos meia dúzia de quilómetros até duas cidades espanholas próximas - Salamanca e Sevilha - e teremos que reflectir sobre o que se passa. Num domingo, pelas 5 da tarde, meia Salamanca veste-se com o melhor que tem e converge para a Plaza Mayor, inundando esplanadas de conversas e risos. E por lá fica até horas tardias. Em Sevilha, pela mesma hora, os transportes públicos enchem-se de mulheres de meia idade ou mesmo idosas - viúvas, talvez? -vestidas com sedas álacres e sorrisos perfumados, que embarcam para mais uma promissora soirée, num qualquer clube de baile.
Por cá, há uns dias, dei comigo com receio de atravessar o Martim Moniz às 8 horas da tarde.

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Segunda-feira, Outubro 13, 2008
Got My Mojo Working (1) - "Hound Dog" Taylor, ou a Música Caseira
Theodore Roosevelt “Hound Dog” Taylor (1915/1975) é talvez dos menos conhecidos “bluesmen/rockers” fora dos EUA. Imerecidamente, como se verifica ao ouvir-se algumas das coisas que se lhe conhecem.
Ao que parece, Taylor aproveitava-se - bem - do facto de ter seis dedos na mão esquerda, e apesar da sua slide guitar electrificada não ser extraordinária, a verdade é que o seu som era único e espectacular. Segundo o próprio, “When I die, they'll say, 'He couldn't play shit, but he sure made it sound good!'", o que de certo modo demonstra alguma modéstia, uma vez que, não sendo um virtuoso, a sua música leva-nos às origens dos blues e do rock, com um estilo quase naif, uma combinação de blues, rock e boogie contagiante.
E talvez por isso, que ao ouvi-lo, me lembro da comida caseira, simples. Muito apropriadamente, o seu grupo de apoio chamava-se The HouseRockers, e o disco aqui representado, intitula-se Genuine Houserocking Music.
Apesar da sua qualidade, "Hound Dog" só foi "descoberto" aos 55 anos, o que, vindo a falecer 5 anos mais tarde, lhe concedeu muito pouco tempo de reconhecimento.

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Retomar o Caminho

Retomo hoje um caminho interrompido tempos atrás. A folga foi voluntária, motivada por nada de especial, tal como nada de extraordinário determina o regresso.
Estive para o fazer criando outro lugar - cheguei a fazê-lo - mas pensei depois que não haveria motivos para tal, pelo que remonto ao poiso habitual.
É curioso - porque não foi premeditado - que esta decisão tenha sido tomada, precisamente numa altura em que nas telas da Grã-Bretanha, corre a versão filmada do livro de Evelyn Waugh, “Brideshead Revisited”, obra que já tinha dado origem a uma das minhas séries de televisão favoritas - e à qual me ligam laços afectivos muito especiais - protagonizada pelo então emergente e promissor Jeremy Irons, e que por cá foi titulada de “Reviver o passado em Brideshead”.
Aqui, porém, não se trata de fazer reviver o passado, antes retomar o passo de modo diferente, por caminhos diferentes, por vezes com pontas coincidentes com algumas das de outrora, mas sem fazer de tal facto, um desígnio.
E já agora, porque falo de “Brideshead Revisited”, acrescentar que o filme que ora estreia é protagonizado por Mathew Goode, a face da Hackett, uma das mais populares e conceituadas marcas de roupa masculina do Reino Unido.

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Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Espelho, espelho meu...
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Flying Machine - Mirror, mirror

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Terça-feira, Outubro 16, 2007
Da Música (2) - The Freewheelin' Robert Zimmerman
Quando Robert Zimmerman lançou o seu primeiro LP, nada fazia prever que, em breve, o homem que foi buscar para seu apelido artístico, o primeiro nome do celebrado poeta Dylan Thomas, se tornaria num dos grandes nomes da música do século XX.
Com efeito, tratava-se de uma colectânea que reunia umas poucas “covers” de canções folk, às quais juntou uma ou duas de sua autoria, com muito pouca relevância.
Mas o que viria a seguir, seria memorável. “The Freewheelin’ Bob Dylan”, juntava uma colecção de canções inspiradoras, algumas das quais se tornariam verdadeiras “bandeiras” de uma geração engajada e politicamente evoluída, que entendia que tinha o direito a ser ouvida. Uma geração que abandonaria os salões onde dançava o rock and roll ao som de Bill Haley e Elvis Presley, e viria para as ruas protestar contra as guerras, as desigualdades e a discriminação racial.
O disco, editado em Novembro de 63, reunia, entre outras, canções como “Blowin’ in the Wind”, “Don’t think Twice, it’s alright”, que na década seguinte, e até terminar a guerra do Vietnam, foram entoadas vezes sem conta, em manifestações com lugar em Washington ou S. Francisco, em Londres ou Paris, e alvo preferencial de “covers” dos mais diversos artistas.
Numa época em que os Beatles conquistavam a América, e toda a gente ligada ao show-business queria encontrar quem fizesse sombra aos Fab Four, Dylan sabia que seria ele a “next big thing”. E disse-o em voz alta.
De um momento para o outro, o rapaz que dedilhava sofrivelmente viola acústica e tocava uma harmónica que trazia pendurada nos ombros, o jovem de cabelo rebelde e voz roufenha, tornava-se num ícone mundial, e os seus poemas, entravam para a galeria dos poetas obrigatórios nas universidades americanas.
Curioso, no meio da riquíssima história de Dylan, é o facto de, tendo sido algumas das suas canções, hinos daquela geração contestatária, nunca ele ter tomado parte em qualquer manifestação daquele tipo, ao contrário de outros nomes, como Joan Baez ou Donovan Leitch.
Quinta-feira, Outubro 04, 2007
Alegadamente
Muito corrente no discurso do meu avô era aquele “ninguém alguma vez viu o dia de amanhã “. Comum, como o meu avô, a frase resumia a incerteza no futuro.
Eu entendia-o, e sabia que a expressão, contendo em si uma fatalidade, não encerrava nada de excessivamente trágico, tratando-se meramente de uma generalidade.Sabia que, apesar de tudo, no dia seguinte o céu e a terra permaneceriam no mesmo lugar. Até um dia…
Porém, os tempos agora são outros, de incertezas muito mais latas, e não se poderá garantir que o que hoje é obstinadamente branco, amanhã não será por decreto, garantidamente preto. Hoje, nada se pode afirmar com absoluta certeza. Ou para ser preciso, hoje, nada se pode afirmar. Hoje, por exemplo, creio que Pereira nunca afirmaria
E é assim que recentemente e irresistíveis, os termos derivados do verbo “alegar”, surgem a dominar o nosso léxico e o nosso dia-a-dia.
Como exemplo, título de uma notícia de um jornal:
A polícia apanhou os “alegados” ladrões em flagrante delito, durante um assalto a uma bomba de gasolina em Freixo de Espingarda às Costas
Perguntar-se-á porque é que, tendo sido os gatunos em flagrante, o jornalista teve o cuidado de os adjectivar de “alegados”. A explicação é simples: provavelmente, na manhã seguinte, quando forem presentes ao juiz, este, “alegadamente”, deixá-los-á sair em liberdade.
Este enriquecimento discursivo, herdado naturalmente dos livros de Direito, para quem noticia e que antes estava sujeito a ser contradito, surgiu como um alívio, como o acessório perfeito para poder noticiar sem correr o perigo de ser levado à barra por editar notícias “não exactas”.
Sou, eu próprio, um apoiante sem reservas da utilização destes abençoados termos, que, para além de enriquecerem o estilo, enobrecem o discurso, porque salvaguardam a exactidão das afirmações, e não raro, dou por mim a utilizá-los.
Eis uma lista de algumas das minhas mais recentes afirmações, nas quais tenho recorrido aos alegados termos:
- Alegadamente, os programas da Julia Pinheiro, estão cada vez mais histericamente imbecis, e, também alegadamente, os programas da TVI cada vez mais direccionados a uma camada de população pretensamente descerebrada.
- Alegadamente, o caso Casa Pia nunca existiu.
- O Woody Allen é, alegadamente, um génio, e a Scarlett Johannsen está, alegadamente, cada vez mais …
- Kate MacCann, é alegadamente uma boa mãe, porque dá aos filhos espaço para que cresçam sozinhos.
- Alegadamente, o Miguel Sousa Tavares, tem noites
- Alegadamente, o “House” sem a Jennifer Morrison, é como uma jarra sem flores.
- Alegadamente, e quando as coisas vão de mal a pior, o Governo sodomiza intelectualmente o povinho, quando todos os dias repete que trabalha para a nossa felicidade.
- O Nelson Ned será uma das cabeças de cartaz na Parada da Sic. Alegadamente, tratar-se-á de uma parábola acerca da qualidade dos programas da estação de Penim e respectivas audiências.
- Alegadamente, o Rui Santos é o ser humano que utiliza mais palavras para expor uma simples ideia (nem sempre muito bem explicada).
- Alegadamente, Pinto da Costa nasceu no Porto e não em Palermo.

E por aí adiante…
Segunda-feira, Outubro 01, 2007
Da Música (1) - Tributo aos Pink Floyd

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Pink Floyd - Comfortably Numb

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Quinta-feira, Setembro 27, 2007
A entrevista

“And there she was, standing with those two big watermelons shaking and bouncing, threatening me“.
Assim começa, de forma quase ameaçadora, o primeiro romance de George W. Bitch, intitulado “How Woody Woodpecker managed to kill Wally Walrus”. O livro é o relato feito na primeira pessoa, por um rapaz da província, órfão, acabado de chegar à grande floresta de betão. O autor dá conta dos primeiros embates do jovem, atlético graças aos baldes de cimento carregados durante os árduos dias de ajudante de pedreiro numa pequena vila da raia, com a vida nocturna em bares de frequência duvidosa, e a transformação que se vai operando no ingénuo rapaz, que passa vertiginosamente do vinho tinto e bagaço para as margaritas e shots, e da rapariga anafada e faces afogueadas com a qual mantinha um namoro ligeiro e vigiado a poucos passos pela sogra de pêlo na venta (literalmente), para relações extremamente profundas com moças esguias e esbranquiçadamente louras, oriundas da Eslovénia ou Lituânia.
O choque é duro, e o livro espelha de forma brutal, a evolução do jovem, em páginas de leitura quase hipnótica.
Chegámos ao local da entrevista, um pequeno bar junto à Estação de Santa Apolónia, e aguardámos mais de 2 horas pelo celebrado autor.
Chegou ao pé de nós um senhor (?) de meia idade muito perfumado e envergando um irrepreensível fato Versace em tons rosados, camisa D&G de seda branca, muito justa, e aberta até um pouco mais abaixo do peito impecavelmente depilado, e uma echarpe púrpura cujas pontas lhe batiam nos joelhos. Acercou-se e disse:
- São os jornalistas da “Livros da Semana“? ao mesmo tempo que colocava na mesa um cartão pessoal impresso e debruado a dourado, em que se evidenciava o nome de George W. Bitch, e o empurrava em nossa direcção com o dedo do meio da mão direita muito esticado, movimento que nos pareceu de gosto dúbio.
Sentou-se, e dobrou as pernas, ao mesmo tempo que puxava a calça, ligeira e cuidadosamente para cima, gesto que deixou à vista uma canela alva e tão árida como o peito, e, sem meias, uns sapatos Prada, com um tacão que lhe fornecia mais uns cinco ou seis centímetros.
- Vamos a isso que se faz tarde - acrescentou com um movimento de mãos afectado e demonstrativo de algum enfado.
Recuperados do choque - estávamos à espera de um tipo mal lavado, de gabardina amachucada e fumador compulsivo - iniciámos a entrevista.
- Lemos atentamente o seu livro, e pareceram-nos evidentes as influências do “noir" americano. Talvez um pouco cru como Henry Miller. Sente-se um novo Henry Miller?
- Ai filho, isso é porque nunca me viu à noite quando saio para me divertir. Sinto-me muito mais Anais Nin ou o Truman Capote!
(nesta altura, pedimos a interrupção da entrevista por uns minutos, para podermos tomar um copo de água e meio Xanax de 5mg)
(continua)
Terça-feira, Setembro 25, 2007
Let The Good Times Roll


É Hoje!
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